Do clássico ao contemporâneo: retratos de Milenna Saraiva

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Essa semana em Såo Paulo encontramos a artista brasileira Milenna Saraiva, vencedora do ano do Art Battle Brasil, que estará fazendo parte de nossa exposição Interseções em Maio.

Quem é você e o que você faz? 

Esta pergunta poderia  ser muito profunda! Eu sou um ser humano, que se expressa através da arte; eu sou uma artista. Venho de uma educação artística clássica, mas meu objetivo é que a minha arte seja cada vez mais livre e expressiva, mas que tenha uma complexidade estrutural e conceitual. Eu não quero se torne somente abstrata, quero incorporar o que eu já faço às coisas que descubro no meu processo. 

Então você aprendeu as regras para agora quebrá-las.

Exatamente!

Jeremy, 2017 | Acrílica sobre tela | 90 x 130 cm

Quando você descobriu que queria ser artista? 

Eu era bem nova. Minha mãe guardou muitos dos meus desenhos de criança e eu encontrei um caderno de rascunho de quando tinha 3 anos de idade, recheado e desenhos de índios e dinossauros. Eu sempre soube que queria fazer isso, mas acabei entrando para mundo da dança e fui atleta por um tempo. Eu fiz Aeróbica de Competição, uma modalidade bem popular nos anos 80; era uma mistura de cheerleading com ginástica olímpica. Eu treinava umas 8 horas por dia dos 10 aos 17 anos mas sempre que tinha um tempo, eu desenhava. 

Você teve uma educação clássica em arte, onde você fez isso? 

Eu sou formada em Artes Plásticas pelo Santa Monica College, em Los Angeles, Califórnia. Quando eu terminei a faculdade fui escolhida para fazer parte do Mentor Program, um programa onde os professores escolhem um aluno de cada gênero artístico para estudar e praticar sob su tutela por um ano; então eles escolhem um aluno em desenho, um em escultura, um em pintura, etc. Eu tive uma mentora que era um artista incrível. Cada aluno recebe um estúdio, dentro de um galpão de um pequeno aeroporto e a nossa obrigação era era ir para lá e fazer o que fomos escolhidos par afazer o máximo possível. Os professores iam até lá para olhar e criticar o nosso trabalho. Foi uma experiência incrível que mudou a minha vida. 

Depois de morar nos Estados Unidos por quatorze anos e meio eu voltei para o Brasil. Eu já exibia meu trabalho por lá desde o meu primeiro ano de faculdade. Aqui em SP fiz um curso de pós graduação em Pintura Contemporânea na FAAP. 

Hybrid, 2016 | Acrílica sobre tela | 50 x 100 cm | Coleção privada em CA.

Foi este o começo da sua trajetória se distanciando da pintura tradicional? 

Sim, antes eu pintava com tinta a óleo, de forma bem contida. esta transformação foi acontecendo aos poucos e pode ser percebida se você entrar no meu website e ver os meus  trabalhos de lá até aqui. Eu buscava esta mudança e um dia no meu estúdio aconteceu. 

Nos fale um pouco sobre o trabalho que você está criando agora. 

Hoje meu foco é o retrato, mas meu trabalho está se desenvolvendo em cima da idéia da abstração dentro do retrato e isso hoje é o que me motiva mais. Eu estou tentando construir rostos com elementos abstratos, de forma livre e fluida, sem linhas, só com tinta. 

O que está te levando nesta direção? 

Eu acho que o pensamento principal é o de que somos todos iguais. Somos todos feitos da mesma coisa, mas de "cores diferentes". As cores nos fazem sentir coisas diferentes. Eu acho que a idéia é criar um conjunto de obras universais. No passado eu pintava pessoas bem específicas, pessoas famosas ou infames e isso foi bem divertido, mas agora eu quero pintar retratos que possam ser você ou eu; qualquer pessoa. 

Então, você quer dizer que hoje é menos sobre pessoas específicas e mais a idéia da existência humana. Interessante! Nos fale um pouco sobre a sua pintura ao vivo e o Art Battle Brasil. 

Bom, é interessante você perguntar sobre isso porque a pintura ao vivo também me levou ao meu estilo atual. Antes do Art Battle Br., que é uma batalha cronometrada de pintura que veio do Canada  ao vivo, eu pintava a sós no meu estúdio, com muito tempo e calmamente. Fui então convidada pela equipe deles para participar e logo de cara eu disse "Não, obrigada". Eles me questionaram porque e eu disse que era porque eu não pintava em público e muito menos em 20 minutos. (risos) Eles insistiram e disseram que não haviam muitas mulheres na competição e que achavam que eu poderia me sair muito bem. Eles me convenceram. 

 O Artista 3, 2018 | Acrílica sobre tela | 140 x 90 cm | R$ 7,560

O Artista 3, 2018 | Acrílica sobre tela | 140 x 90 cm | R$ 7,560

Praticando pintar rápido percebi que as imagens ficavam mais borradas. Aprendi a posicionar as cores na tela em uma ordem que não prejudicasse o meu processo. Tudo mudou então. Eu pratiquei pois sabia que estaria pintando em um palco, lutando contra um relógio, para uma audiência que estaria alí observando o seu processo e te julgando. A platéia vota na sua obra favorita em dois rounds. Os quatro mais votados vão para o round final e todos mês um campeão é eleito. No fim do ano todos os campeões se enfrentam novamente e um grande campeão do ano é então eleito. Eu ganhei em 2016 e em 2017. 

Nossa, isto é fantástico. Onde você se vê indo nos próximos anos? 

Quando eu voltei para o Brasil senti que tive que começar do zero. Em Los Angeles, aos dezoito anos, já tinha meus trabalhos expostos em uma galeria de arte em Beverly Hills. Por lá o que realmente conta é o seu trabalho. O que deveria ser coisa mais importante. Hoje arte é um investimento. Por isso o Art Battle é tão importante, ele democratiza a arte. Estou por aqui há seis anos e sinto que somente agora estou entrando neste mundo. e agora estou pronta para conquistar águas internacionais novamente, mas tendo o meu país como base. 

Milena exibirá suas últimas pinturas em nossa exposição Interseções do dia 10 a 16 de Maio na Rua Oscar Freire.

Para ter acesso ao evento de abertura da exposição, favor mandar rsvp para o email info@focusldn.com